terça-feira, 13 de agosto de 2013

''CONTEMPLAÇÃO''



Eis que passa o vento e depois vem a chuva
desenhando arabescos de vales e montanhas
sobre terra molhada de lágrima e suor.

Ela é deusa de chinelos velhos
a pisar conchas doiradas de ilusões
reflexos de sonhos.

E num riso doido ela não cerra suas pálpebras
torna a pingar lentamente como música
cigarra falando baixinho ou
conchas sussurrando mar.

E no seu andar de garça preguiçosa
continua a tilintar em meus ouvidos
num zum-zum de insetos
tão discretos.

E a cair e a cair
desprende seus braços úmidos
como sal de praia
a tocar meus olhos também úmidos.


Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

''TRANSIÇÕES''

Mastigando raízes de eternidade
adentro-me pelas colinas dos céus
onde Deus é meu relógio.

E buscando sabedoria
não me torno deserto e nem ausência.

Recolho em minha solidão
muralhas de calmaria
sem gemido de dor ou morte.

Em meus redemoinhos 
viajo entre cansaços de séculos
adornada de crisântemos amarelos.

Em minha ausente juventude
não há abismos em voragem.
Trigo, fonte e pombas
ornamentam minhas varandas.

A noite ajoelhada soluça
em seu tapete e entre velas.
O tempo que é túnel
fala das estações 
derramando chuva de invernos
até às eternidades.


Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo



''DISTANCIANDO-ME''

Já quando o tempo não me trouxer mais
lembranças de ti, de tua serenidade
estarei alerta aos sons
dos esquecidos que almejam a paz.

Já quando o tempo não me trouxer mais
verdades de ti, sem medo ou pranto
eu lembrarei das manhãs silenciosas
cheirando a outonos precoces
ou a morangos silvestres.

Já quando o tempo não me trouxer mais
ânsias de amar, de viver
estarei só, na meditação dos invernos
como pombas em crepúsculos, nos cais
à espera de novos rumos
sem barcos tardios ou vazios 
à espera de mãos
como criança que se deixa levar
na ilusão de um brinquedo
ou facho de luz que busca seu caminho
dentro da eternidade.


Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

''NUM GRITO DE REVOLTA''



Há uma erupção de mistérios
dentro da natureza.
Se faz áspera ou sutil
agrega-se ou se torna estéril
ou sem veias
ou vestindo reinados.

Oh, contradições!
dói na carne, nos ossos 
a realidade do imaturo
do fruto precoce
da noite que despertou
aos gritos, raivosa
com a manhã tão graciosa.

Odeio o verbo
na condição do ser imperfeito
da majestade do que é o nada
e do lodo
a não vestir-se de estrelas.

Onde está o perfume da violeta?
Onde dormem os deuses apodrecidos?

Alvina Nunes Tzovenos 

Palavras ao Tempo


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

''ESTIGMA''




Continuarás amor
sendo meu rochedo
enquanto minhas vagas
soltas a correrem
ao encontro de teu calor
deitaram-se sobre tuas pedras
macias de amor


Continuaras amor
sendo meu rochedo
enquanto ventos e brumas
açoitando minhas agruras,
entre teus penhascos;
braços forem doçuras


Continuaras amor
sendo meu rochedo
enquanto minhas sombras
repousadas sobre ti
desanuviarem-se aos luares. 



Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

segunda-feira, 29 de julho de 2013

''AO COMPASSO DE UM TANGO ''



 
desperto-me em emoções espargidas,
poeira de velhos mundos
a dançar estrelas revividas. . .


abraço soluços do amar
entre sorrisos de águas
enamorados de som-luar. . .


num derramar-se de alma
há beijos florindo horizontes
sob olhares perdidos em calma. . .


e vestindo pedaços de infância
num cortejo de juventude ilusão
- breves sonhos!
ao embarcar nas distancias. . .


Mas, ao compasso de um tango,  
eu ainda,
sonho, revivo e amo!



Alviana Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

''ENTRE BELOS MATIZES . . .''



 
Desejo,
anseio,
tocar na policromia dos horizontes,
aquém, lá. . .


e,
ao pintar-me dessas fontes
inebriar-me de belezas,
dançando com a alegria e a tristeza. . .


Roubar o indecifrável. . . dessas presenças.


E aos infinitos,
enciumados,
abandonados. . .
emprestar-lhes
meus presentes beijos.


Desejo,
anseio,
morrer entre cores
sob o olhar ardente dos infinitos,
sem que o amanhecer
discorde. . . exuberâncias
com o entardecer!



Alviana Tzovenos
In: Buscas de Infinitos


 [Tela de Josephine Wall]