quinta-feira, 11 de julho de 2013

''MUTAÇÕES''



 Entre valores falsos de falsos valores
medimos passos de sombras
tantas vezes que
nos deixamos ficar
dentro da violência da vida
e ficamos deixando-nos.

Sobre o ombro da noite
deitamos nossas esperas
como um rio negro de vivos-mortos.

Numa sociedade sem rumo
só de consumo
navegamos como gaivotas sem garganta
ou barco sem narinas
onde a vida nos sobressalta
entre o preto-roxo a comungarem.

E numa procissão de ar severo e triste
espelho minha bandeira
a de pão e sangue
entre domingos plenos de chão.

Choramos sobre as vidraças da alma
sem portos, sem faróis, sem redenções
onde a dor há de nascer e
sempre brotada do ventre
do ventre da religião dos dias
incolores, desiguais.

Alvina Nunes Tzovenos
in Palavras ao tempo

''DESENCANTO''


E na tarde que foge
Ao correr vou buscá-la.
Contar-lhe todos meus sonhos
pedir sorrisos ao beijá-la.


Mas. . . silenciosa ela zomba
nem me estende suas mãos,
. . . já é fruto de sombra!


Quero luz! não sua morte.
Mas tão lenta e tão triste
. . . já pressente sua sorte.


Lá vai ela. . . pobre tarde
carregada em soluços.
Traz nas cores tantos mundos
. . . de um só mundo que parte!



Alviana Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

segunda-feira, 8 de julho de 2013

''LONGOS PASSOS''





 
Sente-se na vidraça da alma
uma tênue luz e sombra
de velhos fantasmas
habitantes de nossas horas.

Sente-se a solitária solidão
a verter lágrimas
quando a hora tornou-se escrava
dos pensamentos.

Sente-se a voz fugidia e quente
das noites abandonadas
a falarem com ventos quebrados
quando o relógio apressou-se demais.

Sente-se a vida galopando
e a imitar andorinhas
que escondem seus olhos
porque fingem que não sentem
a vida passando . . .

Alvina Nunes Tzovenos
De Palvras ao Vento

''AO EXPRESSAR-SE''

Dize da vaga incerta
a bailar sem ausências
sobre teu navio incerto
branco de ausências e canções.

Dize das ruas desertas
de tua canção angústia
desse desejo de regressos
desse choro em tuas varandas . . .

Dize da esperança que não espera
quando teu universo é paz
da noite que não desespera
quando a chuva faz compassos
dentro d’alma.

Dize de ti, do tudo
e do mundo, sem submundo
quando raízes exalam aromas
e quando as flores não morrem.

Alvina Nunes Tzovenos
de Palavras ao Tempo

''E POR QUE NÓS?''




Dentro de todos nós
há uma casa vazia
escura ou clara
translúcida de vida e morte
cheirando memórias de tempo.

Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .

de pranto e de paz e de luz
de risos e de tardes plenas de azul.

Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .

quando os braços da noite
dizem das coisas vividas e
falam com olhos de menino travesso
como se caracóis e caretas de palhaço
enfeitassem nossos desenganos.

Dentre de todos nós
há sempre uma casa vazia . . .

Alvina Nunes Tzovenos
de Palavras ao Tempo

''SOMENTE TU?''



 Onde estão as sementes de ti?
que vaga nuvem descoloriu teus caminhos?
que espelho de vergonha infernizou tuas heranças?
que espada frágil, sem lume desafiou teus dias?
por quais ruas sujaste de preto teus azulados sapatos? 
por que te fizeste tu?

assim, tão sem memória
tão sem muros
a flutuar entre horizontes sem navegação.

Oh, meu Deus!
os náufragos já não querem praias
os religiosos não possuem símbolos
os desertos continuam a queimar
e a dor . . .
Oh, vida!
onde estão as sementes de ti?
em tua dor, em tua vida???

Alvina Nunes Tzovenos
de Palavras ao Tempo

''INVENÇÕES''







Eu sempre quis inventar.

. . . que a vida era doce de mais
tão doce
que os nossos sonhos viviam lambuzados.

. . . que o amor era o universo
vestindo verdades de luzes como rios.

. . . que a morte era um dia de festa
um presente colorido.

Eu sempre quis inventar
a vida e o amor e a morte
mas
foram eles quem me inventaram.

Alvina Nunes Tzovenos
de Palavras ao Vento